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Mamãe, quero ser youtuber! Que raio de profissão é essa?

Maria Flor Calil

07/02/2018 04h00

Lá em casa, minhas filhas têm canais imaginários; enquanto fica no faz de conta, acho até engraçado (Getty Images)

Gente, que raio de profissão é essa?? Sei que estou no final da gravidez e mais rabugenta do que nunca, mas, realmente, não consigo entender como alguém pode querer ser youtuber a princípio. Digo a princípio por que se há algum tempo as crianças queriam ser professores, médicos, bombeiros, jornalistas, arquitetos ou jogadores de futebol, agora querem ser youtubers.

Mas para ensinar o quê? Falar sobre o quê? Geralmente, os youtubers mirins, como são chamados, gravam vídeos propondo desafios para os amigos, dando dicas de brincadeiras e de games, fazendo relatos de viagens e até tutoriais de maquiagem. Outros fazem resenhas de lançamentos de brinquedo e material escolar, prática conhecida como unboxing. Daí a coisa complica, né? Não seria essa uma forma de as marcas fazerem propaganda para o público infantil?

Bom, se a idade mínima exigida para criar um perfil no Google é de 13 anos, imagina-se que os canais dessa criançada sejam gerenciados por seus pais ou responsáveis. Tanto o Ministério Público Federal quanto órgãos como o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) estão bem atentos: todos os elementos que regulam a publicidade dirigida às crianças na TV, valem também para a internet. Não é terra sem lei, não!

Casa de ferreiro, espeto de pau

Lá em casa mesmo, minhas filhas têm canais imaginários. Direto as pego "gravando" vídeos de frente para o espelho, geralmente ensinando o passo-a-passo de alguma coisa, com direito a imitar todos os trejeitos e bordões dos youtubers que mais assistem. Também planejam canais sobre os mais variados temas com as amigas, escolhem nomes, decidem quem vai aparecer no vídeo, quem vai editar etc. Enquanto fica no faz de conta, acho até engraçado.

O que não tem graça para mim é o tempo que elas perdem hipnotizadas na frente do computador ou do celular, vendo um monte de gente histérica gritando, falando nada com nada, sem qualquer conteúdo. Sei que, como mãe, a responsabilidade de regular o uso dos gadgets é minha e não me furto. Mas não quero ser só a chata, a que proíbe e diz não a torto e a direito. Até por que, como a nossa geração não é de nascidos digitais, temos, sim, dificuldade em ensinar coisas que não aprendemos e também em entender o que faz a cabeça da garotada. Infelizmente, esse sempre será um gap entre nós e nossos filhos.

Acompanhando o fenômeno

Atualmente, todo o meu esforço é para chegar em um meio termo que agrade às partes. Sempre que possível, procuro assistir junto, interesso-me pelo que está mobilizando a atenção das meninas e as convido a ter um posicionamento crítico: isso que estamos vendo agora acrescenta alguma coisa na vida? Ensina? Faz pensar?? Está roubando o tempo da leitura, da brincadeira ao ar livre?

Com essa postura mais aberta, também aprendo. Descobri que vários canais mostram tutoriais muito legais, é a febre do DIY (Do It Yourself). Fico abismada com algumas produções de Teresa e Julieta. De artesanato a culinária, elas já fizeram slime, capas de caderno, cookiescupckes, bonecas de tecido e tiaras de unicórnio. Acho incrível a habilidade que os pequenos têm de assistir a um vídeo e reproduzir perfeitamente as receitas. Além de ser muito bacana essa postura maker: pra que comprar, se posso fazer?

E por último, mas não menos importante, quero deixar registrado que tenho consciência de que nossa geração também tinha seus youtubers, eram os boy bands! E também nos entorpecíamos, mas na frente da TV. Ou vai dizer que assistir ao programa do Bozo, da Xuxa ou certos desenhos, acrescentava alguma coisa de útil às nossas vidas? Mas é preciso estar atento e forte, por que, se deixar, nossos filhos passarão o resto da existência sentados, de olho em telinhas.

Sobre a autora

A jornalista Maria Flor Calil, mãe da Teresa e da Julieta, e esperando Francisco, já trabalhou na TV Cultura, na Fundação Roberto Marinho e até foi dona de loja infantil. Depois da maternidade, foi abduzida pelo mundo da maternagem e editou o site da Pais & Filhos, a revista Claudia Filhos e lançou o livro “Quem Manda Aqui Sou Eu – Verdades Inconfessáveis Sobre a Maternidade”. Atualmente, é diretora de conteúdo do Aveq (www.averdadeeque.com.br) e editora de comunicações do Colégio Santa Cruz.

Sobre o blog

Começar de Novo, a música-tema do seriado Malu Mulher (exibido em 1979 e atualíssimo para as questões femininas), é inspiração para a jornalista grávida de um temporão. Um espaço para falar do lado B da maternidade, com uma dose de leveza e outra de profundidade.

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