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O que faz do Brasil o vice-campeão mundial de cesáreas

Maria Flor Calil

21/02/2018 09h20

No Brasil, a cada dez partos, 8,5 são cesáreas (Getty Images)

Depois de publicar, na semana passada, a primeira parte deste post (Não vou dizer que é um passeio, mas quero um terceiro parto normal), e compartilhar em minhas redes sociais, nos comentários, muitas mulheres dividiram suas experiências. Mais uma vez, constatei que esse é um assunto que rende: precisamos falar sobre o parto, sobre a hora de nascer.

Veja alguns depoimentos:

“Quando perguntei ao meu obstetra em qual maternidade ele atendia, ele me disse que não fazia partos pelo plano de saúde e só depois entendi o porquê. Na época, o plano pagava menos do que um veterinário cobra pra fazer uma castração…”

“Esse sistema que é praticado aqui no Brasil mina a confiança entre médicos e pacientes. Basta transferir o assunto: seria plausível que eu, leiga em medicina, resolvesse que quero operar minha amígdala? Não deveria ser uma indicação médica? Assim como na gestação o certo seria ter o parto normal como regra e a cesariana apenas por indicação médica, sem interesses financeiros por trás.”

“Eu passei por uma cesária desnecessária e violenta pelo SUS e só vou ter outro filho quando puder pagar por uma equipe particular de confiança.”

“É importante falar da taxa que hoje é cobrada por muitos médicos de quem tem convênio e opta pelo parto normal. Há quatro anos, minha irmã teve de morrer em 7.000 reais. Então, acaba não sendo exatamente uma opção, né?”

“No meu terceiro parto, bem informada, finalmente pensei que ia conseguir o normal. Casa de parto? Não faz, porque eu já tinha duas cesáreas prévias. SUS? Já vai agendar a sua cesárea, é o protocolo do Ministério da Saúde. Parto vaginal, só pagando a equipe. Grana para pagar? Não tinha. Resultado: terceira cesárea.”

A força da grana que ergue e destrói coisas belas

Enquanto interagia com as leitoras, foi me batendo uma tristeza… Então será que tudo é uma questão de dinheiro?? Quem quer ter um parto normal, humanizado e respeitoso, tem de ter grana para bancar?

Eu mesma, quando me descobri grávida, fiz uma pesquisa no meu plano de saúde –que é bom, e não achei nenhum médico com taxas aceitáveis de partos normais (agora, eles são obrigados a divulgá-las). Resultado: fui buscar uma alternativa particular e o reembolso para consultas e para o parto é ridículo.

Conversando com minha atual obstetra, entendi melhor o lado de lá. Ela me disse que, enquanto atendeu por planos de saúde, tinha de receber quatro pacientes por hora. Sim, consultas de apenas 15 minutos. O pagamento pelo parto era tão irrisório que não dava nem para ter assistente. Por isso, quem faz partos pelo convênio opta pelas cesáreas: enquanto um parto normal pode durar horas, a cesariana é feita em 40 minutos. A prática dos médicos é reservar um dia da semana para as cirurgias agendadas e, assim, eles não têm de desmarcar consultas. Sistema bem perverso esse, não?

A cada 10 partos realizados em maternidades particulares no Brasil, 8,5 são cesáreas

O que puxa a média do país um pouco para baixo e nos coloca em segundo lugar, e não como campeões de cesáreas no mundo (posto ocupado pela República Dominicana), são os índices da rede pública. Ah, mas então é tranquilo dar à luz em um hospital público? Não é, não. Ouvi relatos assustadores de mulheres que não puderam ter seus companheiros por perto, que não receberam analgesia quando pediram, que foram submetidas até a episiotomia (corte do períneo) sem anestesia, entre outras barbaridades que configuram violência obstétrica.

Nesse cenário, quem é que quer ter um parto normal? Aqui entra a questão cultural da explosão de cesarianas mundo afora: a mulherada tem medo de parir e não enxerga mais o parto como um acontecimento fisiológico, para o qual, a princípio, somos aptas.

Como deu para perceber, esse é um problema multifatorial, e não adianta fazer uma caça aos culpados. E, como o número de cesarianas aumentou em todo o mundo, a OMS entrou em campo e baixou várias medidas para frear a epidemia. Saiba mais nesse texto, publicado semana passada, aqui no UOL.

Resumo da ópera?? Informação de qualidade nunca é demais e se cercar de profissionais sérios e de confiança é fundamental. Isso garante que você não vai acabar sendo submetida a uma cirurgia desnecessária. Quanto à questão do dinheiro para ter um parto normal, infelizmente, não sei o que dizer. Espero, de coração, que esse triste cenário mude o mais rápido possível. Serei sempre uma militante da causa.

Sobre a autora

A jornalista Maria Flor Calil, mãe da Teresa e da Julieta, e esperando Francisco, já trabalhou na TV Cultura, na Fundação Roberto Marinho e até foi dona de loja infantil. Depois da maternidade, foi abduzida pelo mundo da maternagem e editou o site da Pais & Filhos, a revista Claudia Filhos e lançou o livro “Quem Manda Aqui Sou Eu – Verdades Inconfessáveis Sobre a Maternidade”. Atualmente, é diretora de conteúdo do Aveq (www.averdadeeque.com.br) e editora de comunicações do Colégio Santa Cruz.

Sobre o blog

Começar de Novo, a música-tema do seriado Malu Mulher (exibido em 1979 e atualíssimo para as questões femininas), é inspiração para a jornalista grávida de um temporão. Um espaço para falar do lado B da maternidade, com uma dose de leveza e outra de profundidade.

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